Nobel da Paz 2026 vai para jurista idosa que ajudou vítimas de guerra e enfrentou genocídio

O prêmio reconhece o trabalho de Navi para que vítimas de guerras, perseguições e violência tenham acesso à Justiça. Ela ajudou a estabelecer decisões históricas que reconhecem o estupro como crime contra a humanidade e genocídio, em determinadas circunstâncias. Também atuou em processos relacionados ao massacre de Ruanda, à perseguição dos rohingyas em Myanmar e às denúncias de crimes cometidos na Faixa de Gaza.
Navi foi escolhida por seus esforços para promover a paz e o direito internacional. Segundo o Comitê Nobel, a jurista ajudou a construir mecanismos para que responsáveis por crimes de guerra, genocídio e violações graves dos direitos humanos possam ser julgados, independentemente do poder político que exerçam.
Prêmio será entregue em dezembro
O anúncio foi feito nesta sexta-feira, 9 de outubro, pelo Comitê Norueguês do Nobel. A cerimônia de entrega está marcada para 10 de dezembro, em Oslo, na Noruega.
Navi Pillay recebeu a notícia quando estava em Nuremberg, na Alemanha, e dedicou o prêmio aos sobreviventes de crimes internacionais e às pessoas que trabalham pela Justiça.
Ela é a quinta personalidade sul-africana a receber o Nobel da Paz. O reconhecimento também foi celebrado pelo presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e por organizações internacionais de direitos humanos.
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Ajudou vítimas de guerra a buscar justiça
Uma das contribuições mais importantes de Navi Pillay ocorreu no Tribunal Penal Internacional para Ruanda, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para julgar responsáveis pelo genocídio de 1994. Naquele ano, aproximadamente 800 mil pessoas foram assassinadas em Ruanda, principalmente integrantes da população tutsi e hutus moderados.
Como integrante do tribunal, Navi participou do desenvolvimento de decisões que estabeleceram que estupros e outras formas de violência sexual podem constituir crimes contra a humanidade e até genocídio, quando cometidos com a intenção de destruir um grupo protegido.
A mudança foi fundamental para o reconhecimento da violência sofrida por mulheres durante conflitos armados. Crimes que durante décadas receberam pouca atenção dos tribunais passaram a integrar processos internacionais de responsabilização. Ela também contribuiu para o avanço do entendimento de que discursos de incitação ao genocídio podem gerar responsabilidade criminal, inclusive quando propagados por meios de comunicação.
De Nelson Mandela aos tribunais internacionais
Navi nasceu em 23 de setembro de 1941, em Durban, na África do Sul, em uma família de origem indiana. Cresceu durante o apartheid, regime que impunha a segregação racial e restringia os direitos da população negra e de outras comunidades não brancas.
Em 1967, abriu um escritório de advocacia e passou a defender pessoas perseguidas pelo regime, entre elas ativistas ligados à luta de Nelson Mandela. Mais tarde, estudou na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e tornou-se uma das primeiras mulheres não brancas a ocupar cargos de destaque no Judiciário sul-africano.
Além de atuar no tribunal para Ruanda, foi juíza do Tribunal Penal Internacional, instituição responsável por julgar indivíduos acusados de crimes como genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Entre 2008 e 2014, ocupou o cargo de alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Investigou denúncias de genocídio em Gaza
Entre 2021 e 2025, Navi presidiu uma comissão independente da ONU responsável por investigar violações dos direitos humanos em Israel e nos territórios palestinos ocupados.
Em 2025, a comissão concluiu que Israel cometeu genocídio contra palestinos na Faixa de Gaza. O governo israelense rejeitou a conclusão e acusou a investigação de parcialidade. A jurista também atua como juíza ad hoc na Corte Internacional de Justiça, no processo em que Myanmar é acusado de genocídio contra a minoria muçulmana rohingya.
São investigações distintas, mas que fazem parte da trajetória da jurista na busca pela responsabilização de governos e autoridades por graves violações dos direitos humanos.

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